Ontem de manhã lá consegui acordar a muito custo. A noite foi longa e a bebedeira também. O papi chegava da "sua" Alemanha e eu fiquei do ir buscar. Atrasei-me, claro. A nova hora também complicou o meu cérebro, que ontem estava particularmente lento. Atrasei-me, mas a Groundforce ainda mais se atrasou. Assim que cheguei à zona das chegadas estava o meu pai a sair. Melhor coordenação foi impossível. Depois dos cumprimentos afectuosos, que sempre trocámos mesmo quando houve grandes quezílias entre nós, lá foi ele fumar um cigarro - na rua, claro. Sempre conheci o meu pai assim, fumador, mão forte e pesada de cheiro inconfundível, bigode, cabelo anelado e óculos. Dizem que não sou muito diferente dele fisicamente. Nunca acreditei nisto. Não me vejo aos 55 anos, quase 56, com aquela barriga de cerveja que revela um sedentarismo grave de vários anos. Almoçar sozinho com o meu pai é das coisas mais interessantes. Fala-se dos podres da família, de política, de mim, dele, de projectos para o futuro, do meu irmão, dos meus avós. Foram duas horas de puro deleite. Normalmente estas conversas são regadas com um bom vinho, mas ontem eu estava apenas a água. A Açorda de Camarão que eu comi estava como é habitual deliciosa. A Espetada de Lombo é que não me pareceu lá muito famosa, era acompanhada por um esparregado quase líquido e umas batatas fritas moles. Enfim, a Portugália continua a falhar quando se trata de porco. Depois do repasto fui entregar a encomenda (leia-se: o meu pai) ao meu irmão a Setúbal. Claro que o cumprimento ao meu irmão não tem o calor que existe com outros membros da família. O nosso pai lamenta esse facto. Claro que a culpa não é nossa, o culpado é o tempo. Sinto-me menos responsável ao culpabilizar o tempo pela separação gélida que existe entre mim e o meu irmão. Em princípio no próximo domingo irei ao almoço de família, vamos ver como corre.
segunda-feira, 31 de março de 2008
sábado, 29 de março de 2008
sexta-feira, 28 de março de 2008
Vida e Comédia
Ontem em dia mundial do teatro fui ao cinema... Fui à Cinemateca ver "A Comédia e a Vida" ("The Golden Coach/ La Carozza d' Oro", de 1952 de Jean Renoir). O filme é protagonizado pela italiana Anna Magnani.
«Baseado numa peça de Prosper Merimée, que estabelece paralelos entre a comédia e a vida, como diz o título português (...) este é um filme que assume o seu aspecto teatral e artificial. Foi realizado em três versões, inglesa, francesa e italiana, sempre com os mesmos actores.»
A versão apresentada foi a inglesa, considerada por Renoir a melhor das três. O filme é realmente uma justíssima homenagem ao Teatro e à Vida. Adorei o convite. Já nem me lembrava as saudades que tinha de ver grandes clássicos no grande ecrã.
quarta-feira, 26 de março de 2008
terça-feira, 25 de março de 2008
Unicamente Mulheres
Conheci a Sara Martinho (foto 1.) ou no final de 2003 ou no início de 2004 através do seu blog Cacaoccino. Numa altura em que houve um boom de blogs de temática LGBT em Portugal. Um dos blogs mais criticados, lidos e comentados da altura foi um que eu (como Alex), um amigo (como Tomás) e uma amiga (como S.) tivemos - o saudoso Conversas Coloridas (já eliminado, apesar de haver um link da Blogger com esse nome).
O Expresso deste fim-de-semana pascal trazia na capa da sua revista Única a seguinte exclamação e pergunta: "Sou lésbica! E então?". Na foto Solange F. (foto 2.) apresentadora do Curto Circuito da SIC Radical.
São ocupadas doze páginas. São seis testemunhos. São seis mulheres. O testemunho que mais gostei foi o da Sara. Sim, estou a ser faccioso. Posso?!? Ela conta duma forma muito natural o seu comming out. Fala duma forma muito natural da sua companheira Rita Paulos (foto 3.). Fala de si. Fala da Rede Ex-Aequo. Fala da mãe. Fala até que "Quero que as pessoas saibam que a minha vida com a Rita é tão aborrecida e banal (...) e insípida como a da maioria das pessoas e isso deixa-me muito feliz.". Fiquei feliz ao ler esta reportagem. Gostei.
Sem dúvida que estas mulheres estão de parabéns. De parabéns está também o Expresso. Não só por abordar este assunto, fazendo-o duma forma muito natural, como também pela produção fotográfica que é magnífica. Quem quiser ler o artigo completo pode fazê-lo através do seguinte link. Podem ver também o depoimento de Solange F. no seguinte vídeo:
segunda-feira, 24 de março de 2008
Sol da Primavera
«O sol abraçava-nos com uma intensidade demasiadamente agradável. A pouca brisa que se fazia sentir era amena. O murmúrio das ondas embalava-nos até aos confins do tempo. Ela quase adormecida enrosca-se mais um pouco no meu colo. Esta praia é saborosa. Este sol da Primavera é saboroso. Esta vida é saborosa. Este momento é saboroso. Esta felicidade é saborosa. O saboroso silêncio é interrompido por si: "Gostava que um dia fossemos felizes...". "Quer dizer que neste momento não somos felizes?" interroguei-a eu indignado. "Mas é este momento... não conseguimos ser felizes todos os dias e todas as horas..." respondeu-me. "Isso é impossível! A vida é feita de momentos... A nossa vida é feita de momentos! Nós temos os nossos momentos de felicidade...". Gilda não ficou satisfeita nem com a minha indignação, nem com a minha resposta. Levantou-se amuada, prontamente abracei-a por trás. Ela esboçou um sorriso malandro. Esta felicidade é saborosa. Este sol da Primavera é saboroso, ai como nos aquece...»
quinta-feira, 20 de março de 2008
bossanova: Elis & Tom
Terceiro episódio da saga Bossa Nova.
Em 1974 Elis Regina (1945 - 1982) e Tom Jobim (1927 - 1994) editaram um álbum em parceria, intitulado apenas Elis & Tom. Elis apesar de ter estado sempre ligada ao samba incursou na Bossa Nova com este álbum. Curiosamente o álbum viria a ser um dos álbuns mais interessantes da Bossa Nova. Com ele foram consagradas diversas músicas, como por exemplo, "Só Tinha de Ser Com Você", "Modinha" ou "Brigas, Nunca Mais". Deixo-vos então aqui duas músicas do álbum:
1. Águas de Março, Elis e Tom
"Águas de Março" tem letra e música de Tom Jobim. Esta canção canta basicamente o fim do Verão e o início do Outono, que no Brasil de dá em Março com a denominada estação das chuvas. Não esquecer que as estações do ano no Brasil são o inverso das estações em Portugal.
1. Águas de Março
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de Março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projecto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de Março fechando o Verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de Março fechando o Verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre treçã
São as águas de Março fechando o Verão
É a promessa de vida no teu coração
...
2. Soneto de Separação, Elis e Tom
Este "Soneto de Separação" foi escrito por Vinícius de Moraes. É um poema lindíssimo que foi musicado por Tom Jobim. Sim, é um poema muito triste, pequeno e incisivo. O que é dito nas entre linhas destes versos é absolutamente maravilhoso.
2. Soneto de Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.