Às vezes, não muitas felizmente, vejo a minha vida como uma daquelas séries americana. Daquelas bem realizadas, bem filmadas, com bons argumentos, bons actores e boas personagens. Esta série, Living in Lisbon – Viver em Lisboa, teria começado em Setembro de 2001, quando vim para Lisboa estudar. Sendo que já vai na sétima temporada. Já foi reclamado o seu cancelamento, mas agora a série está novamente animada, já que pela primeira vez a maior parte da acção passa-se fora de Lisboa. Começou muito timidamente numa espécie de versão de Dawson’s Creek. Já também passou fases tipo Six Feet Under, Desparate Housewives, Chuck, Punshing Daisies, Heroes, ou mesmo The X Files. Agora está numa fase meio Grey’s Anatomy meio Private Practice. A pior fase foi sem dúvida as duas últimas temporadas em que os desentendimentos das personagens azedaram o aparente entendimento entre actores. Mais parecia uma versão rasca de Beverly Hills, 90210. Os conflitos foram de tal ordem que variadíssimos actores abandonaram a série, uns por despedimento, outros por afastamento das suas personagens, outros ainda pelo seu próprio pé. Os produtores agora fazem exactamente o mesmo que os produtores da série Lost, quem se portar mal vai para o olho da rua. Como qualquer série que se preze, apesar dos conflitos e mal-estar, a cada temporada entram e saem personagens. Para além da minha personagem mantém-se na série apenas mais duas personagens da primeira temporada. É certo que esporadicamente aparecem personagens que já saíram. Mas a melhor fase até agora foi sem sombra de dúvida a que precedeu os conflitos. De momento está outra vez numa boa fase. Com personagens bastante fortes e dinâmicos. Tudo graças a bons actores que foram recentemente contratados. Esta série não é estanque, não se cinge a apenas um tema, é muito vasta, aborda inúmeros assuntos. Desde amores a desamores, desde sexo desenfreado a sexo sem precauções, desde homossexualidade feminina e masculina, até a supostas heterossexualidade, desde doenças graves a sustos hospitalares, desde morte a nascimentos, desde comédia a drama, desde humor a tragédia. Como podem ver esta série é um sucesso estrondoso…
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Ti' Alice: o aniversário.
"Acaba de comer uma fatia de bolo. Hoje é o seu aniversário. Já perdeu a conta aos anos que faz. E a idade que está no seu bilhete de identidade não é a real. No seu tempo, como havia uma grande mortalidade infantil em Portugal, as crianças eram apenas registadas depois de serem baptizadas e depois de completarem pelo menos um ano de idade. Nem todos os netos ainda lhe telefonaram. Mas já ficou particularmente satisfeita por pelo menos um deles lhe ter telefonado. Hoje fizeram-lhe um bolo. Chegou a soprar as velas e tudo. O bolo foi-lhe feito pela amiga Hélia, a empregada da sua vizinha Dra. Ana. A vizinha e a amiga ofereceram-lhe uma varinha mágica. Ficou tão contente que até uma lágrima lhe espreitou nos olhos. Se não fosse aquela casa já teria feito uma besteira, como costuma dizer."
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O regresso, o desenho e o receio.
«Regressou! Regressou para os seus braços. Regressou para os seus beijos. Regressou para a sua vida. O desenho das duas figuras à mesa de jantar numa das duas casa era impressionante. O jantar não era à luz das velas, mas era romântico. As mãos dadas, a conversa, os pratos, a mesa, as cadeiras, os copos, a posição dos quatro pés em contacto... Se existisse perfeição... tudo, tudo estava desenhado de forma perfeita. O crescendo, pode-se dizer que amoroso, vai-se intensificando no peito de cada um. Mas como a perfeição não existe, nem tudo é perfeito... há sonhos que os levam a pensar que tudo o que andam a viver é descabido, há segredos não revelados que podem condicionar as suas vidas, há sobretudo receios do que os espera ao virar da próxima esquina.»
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Ti' Alice: as mamas.
"Miga de forma descuidada as cascas das duas generosas fatias de melancia que acabou de comer. É bom vê-la comer assim. Não é mulher de comer muito. Nunca foi. Diz que não come muito por causa dos diabetes e do colesterol. Está magra. Muito magra. Principalmente da cintura para baixo. Apenas tem mamas. Não aquelas que em tempos já teve. Sempre foi conhecida pelas suas mamas enormes. Deixou de o ser um dia. No final de Dezembro dum certo ano uma panela de pressão rebentou quando estava a entrar na cozinha. Partes do cozido foram-lhe parar em cima, queimando a blusa de tirilene que vestia. Depois de curadas as inúmeras cicatrizes nos dois peitos, estes foram-lhe reduzidos para metade. Deixou de ser a mesma. Continua a usar frescas blusas de tirilene."
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Moscatel da Bacalhôa
«Acordou com frio. Olhou para a frente e viu a parede. Voltou-se e viu-o a ele. Dormia. Pelo menos aparentava dormir. Tinha a certeza que dormia. Passou as suas mãos pelo seu cabelo, estava oleoso. Não lhe tocou mais. Queria preservar aquele momento. Tapou-se e fechou os olhos. Adormeceu. Não foi bem aquele dormir verdadeiro. Dormitou. O seu sono estava muito leve. É normal, estava numa cama estranha, os estores não estavam totalmente corridos, e da porta do quarto entre-aberta via-se a luz clara do nascer do dia numa casa com vista para o Castelo. Mas tinha um sorriso nos lábios ao voltar a adormecer, lembra-se disso. Esse sorriso era motivado por lembranças dessa mesma noite. Como o convite para um Moscatel da Bacalhôa pode ser um (falso) motivo para algo mais...»
quarta-feira, 30 de abril de 2008
dó-ré-mi
«Entrei no seu restaurante tentado não ser descoberto. Fui encontrar Gilda a dedilhar uma melodia qualquer na guitarra. Parecia-me uma canção de amor francesa, daquelas em que se sofre de amor duma forma terrivelmente dolorosa. Uma daquelas canções que Edith Piaf com certeza chorou a cantar. Abeirei-me de Gilda para tentar acalmar o meu e o seu espírito. Abraço-a por trás. Gilda assusta-se. "Porque tocas uma canção tão triste?" pergunto-lhe. "Porque estou triste!" responde-me. Volto a perguntar "Mas que se passa?". "Não me sinto realizada. Nem profissionalmente, nem como mulher!" responde-me de forma ainda mais triste. Abraço-a ainda mais e com mais força. Vindo de si o seu perfume embriaga-me a razão. Fico desconcertado. Não sei como a ajudar. Já nem sei que fazer. Sei apenas que a sua tristeza se apodera também de mim. Eu padeço do que ela padece. Gilda volta a tocar e a murmurar a mesma canção: Non! Rien de rien! Non! Je ne regrette rien!. Fico apenas a ouvi-la a encher-me o coração.»
segunda-feira, 24 de março de 2008
Sol da Primavera
«O sol abraçava-nos com uma intensidade demasiadamente agradável. A pouca brisa que se fazia sentir era amena. O murmúrio das ondas embalava-nos até aos confins do tempo. Ela quase adormecida enrosca-se mais um pouco no meu colo. Esta praia é saborosa. Este sol da Primavera é saboroso. Esta vida é saborosa. Este momento é saboroso. Esta felicidade é saborosa. O saboroso silêncio é interrompido por si: "Gostava que um dia fossemos felizes...". "Quer dizer que neste momento não somos felizes?" interroguei-a eu indignado. "Mas é este momento... não conseguimos ser felizes todos os dias e todas as horas..." respondeu-me. "Isso é impossível! A vida é feita de momentos... A nossa vida é feita de momentos! Nós temos os nossos momentos de felicidade...". Gilda não ficou satisfeita nem com a minha indignação, nem com a minha resposta. Levantou-se amuada, prontamente abracei-a por trás. Ela esboçou um sorriso malandro. Esta felicidade é saborosa. Este sol da Primavera é saboroso, ai como nos aquece...»
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Beija-me!
«O cabelo ondulado tentava tapar o que o decote do vestido negro teimava em mostrar. Alheia à confusão que reinava Gilda observava uma loja de roupa para bebés. Quereria isto dizer alguma coisa? Aproximei-me de si tentando não a assustar. Entreguei-lhe o ramo de estrelícias, as suas eternas e exóticas flores. Deu-me um longo beijo, que supus apaixonado. As minhas mãos precorreram-lhe as curvas do seu delicioso corpo. "Quero ter um filho teu!" diz-me logo de seguida. Fiquei atónito, nada lhe respondi. Afinal queria dizer alguma coisa o facto de estar a ver aquela montra. Beijei-a de novo, agora com mais intencidade ainda. Os seus longos dedos despenteavam-me as melenas. Apertei-a ainda mais contra mim. Senti vindo de si o calor do nosso terrível amor. O beijo foi eterno e logo de seguida terminou.»
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
D&G: Funny Valentine
«Conheceram-se em 2004 no dia 13 de Fevereiro. Era uma sexta-feira algo gelada. Esse Inverno foi friorento. Véspera do tão temível Valentine's Day. Temível para os "encalhados". Não que isso fosse já um problema sério para ambos. Temível por ser também sexta-feira 13, dia de todos os azares, ou talvez sortes.
Carmensita por essa altura dedicava algum do seu tempo livre à internet e a conhecer rapazes. Andava numa de sexo descartável. Sabia-lhe bem. Adorava usar e ser usada. Mas lá no fundo, no fundo sentia que alguma companhia lhe fazia melhor.
Diogo queria apenas tempo para si. Dedicar-se ao trabalho a todo o custo. O mais importante no momento era a carreira. Mas lá arranjou tempo para dois jantares naquela semana. Um com uma conhecida da internet e outro com amigos.
Combinaram jantar no Restaurante Argentino das Escadinhas do Duque. Marcaram às 20h30 na entrada principal da Estação do Rossio. A hora marcada foi respeitada por ambos, pois ambos são cumpridores dos horários. Carmensita por questões profissionais. Diogo por questões educacionais. Apesar do frio a noite estava límpida e agradável, propícia a encontros amorosos. Ela na altura morava em Benfica e resolveu ir de carro. Não lhe apetecia andar de transportes toda embonecada. E assim teria mais algum tempo para se arranjar. Já ele morava ainda em casa dos pais em Alfama e foi a pé, apesar do frio. Pensou que ir a pé lhe iria fazer bem. Assim poderia desanuviar um pouco a cabeça do trabalho. Lá subiram as Escadinhas do Duque calmamente, como se a vida fosse deliciosa. E sim, a vida sabe às vezes ser deliciosa. Diogo falou pouco, foi comedido em cada palavra que disse. Carmensita já não. É e sempre foi uma fala barato. É muito fácil ter uma conversa com ela. A ele têm que ser por vezes arrancadas as palavras. O restaurante estava apinhado. O que lhes valeu foi que Carmensita havia reservado mesa. O jantar correu-lhes bem. Comeram um delicioso bife de carne de vaca argentina e beberam um bom vinho também argentino. Demoraram-se no jantar, na comida, na bebida. Depois do segundo copo Diogo já estava mais solto. Carmensita não podia abusar muito, pois ainda ia conduzir. Mas abusou... Abusou tanto que convidou Diogo a um copo em sua casa. Este também já abusado de vinho aproveitou e foi. Abusaram sexualmente um do outro. Era o que queriam. Um momento meramente sexual. Deliciaram-se com o suor, o cheiro, a sede, a vontade, dos dois. Depois das delícias estavam ambos cansados e vira-se Diogo muito ensonado para Carmensita:
- Era capaz de dormir abraçado a ti...
- O quê? Estás louco! - respondeu-lhe muito indignada. - Não temos intimidade para essas coisas.
- Vais-me obrigar a ir para casa a estas horas? - eram já 04h.
- Obrigar, obrigar não vou... - Carmensita dá um beijo cínico em Diogo. - Vou apenas expulsar-te literalmente de casa. Apenas isso.
- Como?
- Vá veste-te lá que tenho que descansar.
Atónito e em silêncio Diogo lá se vestiu. Sentiu-se mesmo abusado. Mas afinal não era o que ambos estavam a precisar?»
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Proibido Fumar
«Gilda entra no restaurante. Lentamente, muito lentamente tira a luva da mão direita. Sensualmente, muito sensualmente tira a luva da mão esquerda. De seguida atira-as à cara de alguém. O silêncio e a estupefacção imperam. Com um inclinar de ombros o casaco desliza-lhe pelas costas e pelos braço. Dirige-se ao centro, um passo à frente do outro, estilo modelo, arrasta o casaco pelo chão. A femme fatale no seu melhor. Um fulano qualquer oferece-lhe um cigarro. Prontamente alguém estende-lhe um Zippo de chama pronta. Eu, muito indignado, chego-me a ela e pergunto-lhe: "Voltaste a fumar?!?". "Sim! Porquê? Tens algum problema com isso?" responde-me ela. "Sim, tenho!" e arranco-lhe o cigarro da boca e jogo-o no chão, pisando-o com raiva. Uma valente estalada sua petrifica-me. Viro-lhe costas e dirijo-me à saída. Abandonando-a à sua sorte. Soube mais tarde que nessa mesmíssima noite a ASAE foi a esse restaurante fazer uma inspecçãozinha. Acabou por fechar o espaço e multou Gilda. Realmente a sua sorte nessa noite não estava a seu favor...»
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
D&C: Noite de Consoada
«Chove! Chove lá fora. Ai como chove! As escovas do pára-brisas não param. O barulho no exterior é ensurdecedor. O vento é ensurdecedor. Os trovões são ensurdecedores. O carro pouco os protege. Faz-se sentir algum frio, mesmo com o ar condicionado. Nunca mais chegam ao destino. Já nenhum dos dois suporta tanta demora. A poucos metros vêem os raios a serem engolidos pela terra. A tempestade ameaça-os. A noite está densa e os perigos estão à espreita.
É dia 24 de Dezembro. Aliás é já noite. A noite de consoada. Temos Diogo e Carmensita . Estão já a poucos quilómetros de Fronteira, no Alentejo. Vêm desde Lisboa. Rapidamente se pôs noite. E assim que chegaram ao Alentejo começou a chover e a trovejar. No rádio ouve-se agora um CD de Natal que Diogo fez questão de trazer: The Best Cristmas Album In The World.
Carmensita já não suporta mais aquela tempestade. Está inquieta como o tempo. E a viagem até casa dos seus pais parece estar a demorar uma eternidade. Uma eternidade angustiante. As canções natalícias estão a irritá-la de tal maneira.
Diogo está mudo, tenta conduzir com a maior das cautelas por entre as curvas tortuosas da estrada. Não quer que cheguem atrasados, mas também não quer colocar nenhum dos dois em risco. Amaldiçoar-se-ia se algum mal acontecesse à su Carmensita .
Esta não consegue de maneira nenhuma sossegar. Há qualquer coisa que a aflige. Só não sabe bem o quê. Já nem são as cantorias de Feliz Natal. Não tem medo de trovões, relâmpagos, ou raios. Mas vê-los ali tão próximos tanto a assusta como a fascina. "Quem me dera ter aqui uma máquina fotográfica!", pensa alto distraidamente.
- Que disseste? - pergunta-lhe Diogo.
- Hã ?!? Como? - disse Carmensita.
- Que disseste? Não precebi!
- Não sei! Acho que não disse nada...
- Foi qualquer coisa sobre não teres máquina fotográfica... - insiste Diogo.
- Ah! Era o que estava a pensar... Há uma beleza estranha nos relâmpagos. E apetecia-me fotografá-los. Já reparaste no poder que emanam? - pergunta Carmensita .
- Não estou muito atento aos relâmpagos... Com esta tempestade, preocupa-me mais a estrada. Sabes melhor que eu que estas estradas do Alentejo são muito perigosas. - tenta-se justificar.
- Sim! Claro! Tens razão!
- Mas tenho aí a minha máquina fotográfica... está na minha pasta no banco de trás. - disse por fim Diogo.
- Oh! Já podias ter dito... Para o carro! Quero ir tirar umas fotografias. - barafusta Carmensita.
- Agora? Já estamos atrasados e ainda devemos demorar uma boa meia hora ... - choraminga.
- É só por alguns minutos. Eu tiro umas fotos rápidas e vamos logo embora. - pede Carmensita .
- Mas vais ficar toda molhada... - lamuria.
- Não faz mal! Eu depois seco-me na lareira dos meus pais. Não te esqueças que ainda lá tenho roupas minhas.
- Só se forem vestidinhos às florezinhas de quando eras miúda... - graceja Diogo.
- Vá! Para lá o carro se faz favor. - ordena Carmensita .
- Está bem! Está bem! - Assim que Diogo pára o carro, Carmensita avança pela tempestade adentro de máquina fotográfica em punho. Os únicos flashes que se vêem são os da máquina e os relâmpagos. Passados poucos minutos de estar no exterior Carmensita fica totalmente encharcada . Não só encharcada pela chuva como também pela emoção. A emoção de estar assim tão perto dos raios. Os raios já não ferem a terra, penetram-na, são uma forma de a fertilizarem...
- Sai daí! - implora Diogo. - Vamos embora!
- Sim, vamos já. - Carmensita entra muda no carro. O silêncio agora impera. Diogo desligou finalmente o rádio. Deixa de repente de chover, como que por um passe de mágica. Todo o temporal se desvanece. Raios, trovões e relâmpagos desaparecem do céu. A viagem continua em silêncio, agora bem mais calma. A mão esquerda de Carmensita procura a direita de Diogo, pousada na alavanca de mudanças. Acaricia-lhe as veias salientes. O amor que ambos sentem um pelo outro reflecte-se neste pequeno e simples gesto. Agora sim poderão prosseguir pelos poucos quilómetros que faltam e ir cear tranquilamente como a época o exige.»